Conjugalidade e carnaval

Promessa é dívida! No último texto do blog eu disse que falaria sobre carnaval e conjugalidade, e aqui estamos.

Como pode um relacionamento sobreviver ao carnaval, a famosa “festa da carne”?

Quando ambos amam ou odeiam o carnaval, não há problema. Há sintonia nos desejos. O casal que ama carnaval geralmente veste fantasias combinando e se diverte junto. O casal que odeia essa festa faz outras coisas junto, quer seja ficar em casa ou viajar para lugares tranquilos.

Mas, e o casal em que um gosta do carnaval e o outro não?

Alguns de vocês podem pensar “existe a concessão, é só um ceder ao outro de vez em quando e vice-versa”. Mas será que é tão simples assim? Penso que para alguns casais sim, para outros não. Independente se há ou não concessões numa relação, alguns pontos são muito importantes de se considerar.

VULNERABILIDADE: Antes de qualquer decisão, o casal precisa ser capaz de sinalizar o que sente e quais são as suas necessidades de maneira a não culpar, criticar, cobrar ou julgar o outro.

Neste texto, considere vulnerabilidade como o ato de estar totalmente aberto e desarmado perante o seu par. Tem uma frase da Brené Brown que eu gosto muito: “Vulnerabilidade não é ganhar nem perder. É ter a coragem de se expor, mesmo sem poder controlar o resultado”.

Exemplo do que deve ser evitado:

Pessoa A (que gosta do carnaval): “Você me irrita. Nós nunca saímos de casa por sua causa. Você é antissocial, não quer sair comigo e não me deixa sair sem você, está me fazendo de prisioneiro(a)”.

Pessoa B (que não gosta do carnaval): “Você me tira do sério. Você que ainda não percebeu que passou da idade de pular carnaval. Você não assume que só gosta de sair para o carnaval porque não aguenta ficar comigo em casa fazendo algo tranquilo. Você é muito influenciável.”

Percebeu como esse tipo de diálogo pode levar o casal para uma briga infinita, cheia de acusações, julgamentos e o pior, desconexão?

Então, aqui vai um exemplo de como ser vulnerável, sinalizando o que cada um sente e precisa de maneira a efetivamente se sentir ouvido e conectado, independente do resultado prático final de sair ou não para pular carnaval.

Pessoa A: “Eu fico irritada quando te chamo para sair comigo e você nunca quer. No fundo, tenho medo de que você não se importe comigo e com coisas que são importantes para mim. Eu preciso sentir que você seria capaz de fazer algo que não gosta para estar ao meu lado, preciso sentir que sou importante para você”.

Pessoa B: “Eu fico impaciente quando você insiste para fazermos algo que eu não gosto e não respeita o meu ‘não’. No fundo, tenho medo de que você me considere um cônjuge falho. Eu preciso sentir que você me ama do jeito que sou”.

Percebeu como há uma grande diferença entre os dois exemplos? No primeiro há briga, desconexão. No segundo há conexão, segurança, vulnerabilidade.

Considerando os dois exemplos anteriores, de que forma você gostaria de ser tratado pelo seu par? De que forma você imagina que seu par gostaria de ser tratado por você?

Se você reparar bem, até agora eu só mencionei a importância de o casal conseguir conversar de forma honesta sobre o que sente e sobre suas necessidades profundas. Eu nem entrei na questão da concessão propriamente dita. Para chegar na concessão, tem outro ponto que considero igualmente importante: a negociação. Na minha visão, negociação e concessão acontecem juntos e de forma natural após essas conversas emocionalmente vulneráveis.

NEGOCIAÇÃO E CONCESSÃO: Penso que essa é a etapa natural na qual o casal chega após ambos terem sido corajosos para falar das suas questões emocionais mais íntimas. Exemplo:

Pessoa A: “Eu gostaria de ir à festa e ficar até acabar, mas sei que você prefere ficar em casa. Então ficarei feliz se você for comigo, mesmo que isso signifique que ficaremos lá apenas uma ou duas horas antes de voltar para casa”.

Pessoa B: “Eu gostaria de ficar em casa, mas sei que você prefere pular carnaval. Então ficarei feliz se você puder se sentar ao meu lado e assistir nossa série preferida comigo antes de irmos ao (ou depois de voltarmos do) carnaval”.

Eu coloquei aqui apenas alguns exemplos hipotéticos. Com certeza poderia haver outros combinados. O grande “X” da questão é que não importa o resultado, mas sim a segurança que o casal constrói no relacionamento durante o processo.

Outro ponto relevante é o tipo de concessão feita. Repare que, nesses exemplos que coloquei, um não precisa abrir mão do que gosta em nome de agradar o outro, mas também se preocupa em atender a necessidade do par. A “pessoa A” não precisa desistir de sair para curtir o carnaval e a “pessoa B” não precisa desistir de curtir o sossego do lar. O casal pode chegar num acordo que seja bom para ambos, em que ambos se sintam priorizados.

Nada impede que a “pessoa A” vá com amigos ao carnaval enquanto a “pessoa B” fica em casa. Se há segurança e confiança na relação, essa combinação também pode funcionar. Aliás, uma curiosidade a meu respeito: essa é a combinação que tenho com meu marido. Até hoje tem funcionado bem, mas também pode ser revista se em algum momento julgarmos necessário.

É bom termos em mente que é saudável o relacionamento mudar conforme as pessoas mudam. Como já dizia o químico francês Lavoisier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma“. Séculos antes dele, o filósofo Heráclito já dizia: “Não há nada permanente, exceto a mudança“.

Agora uma pergunta para sua autorreflexão: você tem ou consegue se imaginar tendo uma conversa assim (de vulnerabilidade, negociação e concessão) com seu par? Caso responda “não”, acha que seja possível construírem esse caminho juntos a partir de agora?

Eu torço que sim, porque nunca é tarde!!

No mais, bom restinho de carnaval para vocês!

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