Sobre mortes e nascimentos

Você já passou por alguma dificuldade bem grande no trabalho ou em algum relacionamento? Provavelmente sim, certo?

Certa vez, dando aula para uma turma mista de jovens e adultos, eu estava falando sobre Evoluciologia (o estudo da evolução das consciências) e usei uma metáfora que fez todo sentido e ajudou a turma a compreender o conceito. Essa foi a metáfora:

Estamos evoluindo o tempo todo e passamos por fases como num videogame: ao adquirir algumas habilidades e ferramentas para ultrapassar obstáculos, completamos uma fase e avançamos para a próxima, na qual também usaremos as ferramentas e habilidades adquiridas anteriormente além de adquirir novas, que nos ajudam a superar obstáculos cada vez mais complexos conforme avançamos para as etapas seguintes.

Vejo as dificuldades da vida como etapas de um jogo de videogame, no qual usamos nossas habilidades para superar desafios, mas também sofremos algumas vezes tentando conquistar novas ferramentas e habilidades para cada nova dificuldade que enfrentamos.

E é claro que, ao longo desse processo, “morremos” algumas vezes. Morrem nossas versões antigas e nossas crenças ultrapassadas, morrem algumas esperanças e algumas dificuldades, morrem medos antigos, etc.

A morte não é ruim, pois representa abertura de espaço para o nascimento do que é novo. Nascem novas versões de nós mesmos, versões mais qualificadas. Nascem novas esperanças, novas dificuldades, novas motivações, etc.

Apesar do nascimento de tantas coisas boas, costumamos temer (e muito!) o processo da morte. Como é difícil lidar com a morte! Desde criança aprendemos que a morte é algo ruim, que traz dor, que deve ser evitado… Morte é um tabu, e aprendemos a ter medo dela. A tanatofobia (medo da morte) é a mãe de todos os medos! É algo que vem até incrustado na nossa genética.

Então como encarar com naturalidade a morte:

– de um familiar?

– de um animalzinho de estimação?

– de uma amizade?

– de um casamento?

– de uma equipe que já não funciona bem junto?

Não fomos ensinados e não aprendemos a lidar bem com essas mortes. Aprendemos apenas a temê-las. E é por isso que:

Nós sofremos. Nós choramos. Nós gritamos. Nós brigamos. Nós negamos. Nós ignoramos. Nós empurramos para debaixo do tapete. Etc…

Etc…

Etc…

Até que chega o dia em que nós aceitamos.

E quando esse dia chega, meus amigos… Quando nós aceitamos essas mortes, aí sim abrimos espaço para o nascimento!

Nascimento de compreensão, de autocuidado, de possibilidades, de novas relações, de novas formas de se enxergar e de estar no mundo, de novas formas de valorizar o que segue vivo em nossas vidas (e até de valorizar o tempo que tivemos com o que/quem acabou de morrer).

Nascimento representa a aceitação das contradições existentes no mundo!

Quando nos abrimos para os nascimentos, a dor se transforma em lembranças boas que nos acalentam, e/ou em lembranças ruins de coisas que podemos usar como aprendizados para as fases seguintes da nossa vida.

E, na minha visão, o medo é um dos maiores estagnadores para vivenciarmos de maneira suave e natural o processo cíclico de dança entre morte e nascimento.

————–

Hoje eu me permiti escrever nesse texto o que viesse de dentro de mim, sem nenhum tipo de repressão ou filtros, e agora me deparei com essa importante reflexão.

Vejo que acabo de encontrar dentro de mim a morte de um medo, ou pelo menos a morte de um grande pedaço desse medo que já foi muito maior do que hoje… o medo de fazer errado e de sofrer grandes e dolorosas consequências que resultem na minha morte simbólica.

Ao mesmo tempo, também acabo de encontrar dentro de mim um novo nascimento: o nascimento de uma vontade de enfrentar o que vier pela frente, mesmo que seja desconhecido e difícil, porque sei que, mesmo no pior cenário, eu aprenderei novas habilidades para as próximas etapas da minha vida, e também porque percebi que, se estamos todos num ciclo constante e complementar de nascimento e morte, o que de pior pode acontecer?

2 Comentários

  1. Ana Isabel

    Para mim a morte representa o fim aqui na terra de pessoas que amamos… Encerra esse elo de contato físico, visual mas o que acalenta pq sabemos que quem partiu, está em evolução melhor que na vida terrena… Esse é um assunto muito delicado que requer sabedoria e conhecimento para falar sobre….O medo da morte é real para qq pessoa, vc estando em uma disputa entre vc e outra pessoa em um assalto, ou acidente de trânsito, vc vai tentar lutar para que não seja vc na luta contra a morte… Nessa situação não dá nem tempo de saber se teve medo ou outro sentimento pela sobrevivência….

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