“‘O fato básico é que Sally não entende nada de dinheiro’, Jay afirma. ‘Ela é muito emocional e tem problema em confiar em mim e me deixar administrar o dinheiro’. Sally explode: ‘Sim, claro. Como sempre o problema sou eu. Como se você realmente entendesse de dinheiro! Acabamos saindo e comprando aquele ridículo carro que você queria. O carro de que não precisamos e não temos como manter. Você só faz o que quer. De qualquer forma, minha opinião sobre as coisas não tem importância para você. Na verdade, eu não tenho importância para você, ponto’.
Chris é um ‘pai desumano, rígido e indiferente’, acusa Jane. ‘Os meninos precisam ser cuidados, não é? Eles precisam da sua atenção, e não apenas das suas normas!’ Chris vira a cabeça para o lado. Ele fala calmamente da necessidade de disciplina e acusa Jane de não saber impor limites. Eles vão e vêm, discutindo. Finalmente, Jane põe o rosto entre as mãos e lamenta: ‘Eu não sei mais quem é você. Você virou um estranho’. Outra vez Chris se afasta.
Nat e Carrie sentam-se num silêncio obstinado até que Carrie rompe o mutismo e põe para fora, em choro, o quanto se sente chocada e traída com o affair de Nat. Ele, com um ar de frustração, relata suas razões para o affair. ‘Já te falei, dezenas de vezes, por que aconteceu. Fui sincero. E, por Deus, foi dois anos atrás! É coisa do passado! Já não está na hora de você passar uma borracha e me perdoar?’ ‘Você não sabe o significado de ser sincero’, Carrie fala meio gritado. Depois sua voz vira um sussurro. ‘Você não liga para mim, para meu sofrimento. Você só quer que tudo volte a ser como antes’. Ela começa a chorar, e ele olha para o chão.
Pergunto a cada casal o que eles acham que seja o problema básico na relação deles, e qual poderia ser a solução. Eles pensam um pouco e oferecem algumas ideias. Sally diz que Jay é muito controlador e que precisa ser ensinado a compartilhar o poder de maneira mais equânime. Chris sugere que ele e Jane têm personalidades tão diferentes, que um acordo sobre como cuidar dos filhos é impossível. Eles poderiam resolver a divergência fazendo um curso sobre como educar os filhos com um ‘especialista’. Nat está convencido de que Carrie tem algum tipo de problema sexual. Talvez devessem procurar um terapeuta sexual a fim de que pudessem voltar a ser felizes na cama.
Esses casais estão se esforçando bastante para entender o seu sofrimento, mas suas formulações fogem do ponto central. Muitos terapeutas concordariam que suas explicações são apenas a ponta do iceberg, a crista superficial tangível de um monte de problemas. Então, qual é o ‘problema real’ que continua escondido?
Se eu perguntar a terapeutas, muitos dirão que esses casais estão envolvidos em lutas destrutivas pelo poder, ou em padrões de brigas cáusticos, e que precisam aprender a negociar e a melhorar suas habilidades de comunicação. Mas os analistas, também, estão ignorando o ponto crucial do problema. Eles apenas desceram para a linha da água.
Temos que mergulhar abaixo para descobrir o problema básico: esses casais estavam desconectados emocionalmente; não se sentiam emocionalmente seguros uns com os outros. O que os casais e os terapeutas muitas vezes não veem é que as brigas, em sua maioria, realmente são protestos contra a desconexão emocional. Por baixo de todo o sofrimento, os parceiros estão pedindo a cada um: Posso contar com você, depender de você? Você está disponível para mim? Você responderá a mim quando eu precisar, quando eu chamar? Eu importo para você? Sou valorizado e aceito por você? Você precisa de mim, confia em mim? A irritação, a crítica, as reclamações, realmente são brados para seus amados, chamados para mexer com seus corações, para recuperar seus cônjuges emocionalmente e restabelecer uma sensação de conexão segura.”
Trecho retirado do livro:
Johnson, Sue. Abrace-me apertado: sete conversas para um amor duradouro. São Paulo: Jardim dos Livros, 2012, p. 29 e 30 (versão PDF).

